Simplificação para eliminar defeitos

Infelizmente, a maior parte das fazendas brasileiras coleciona uma série de desperdícios. Entre os mais comuns, está o defeito. Afinal, quando o resultado de um processo apresenta defeito, não há dúvida de ocorreu um desperdício de tempo e recurso, além do retrabalho para refazer o processo. Dieta mal distribuída, bezerra mal colostrada ou com diarreia, tetos das vacas injuriados após a ordenha ou ordenha de vaca em tratamento, por exemplo, são todos resultados de processos com defeitos. 

O caminho para eliminar esse desperdício é tornar os processos tão simples que qualquer pessoa possa executá-los, com baixa chance de fazer errado. Isso garante um número menor de falhas, além de permitir produzir de forma mais rápida, otimizando tempo e recursos - inclusive pessoas. Além disso, a simplificação facilita a capacitação de um novo empregado.

Em geral, desejamos  que todas as pessoas saibam o que precisa ser feito, na hora certa e da forma certa. Para que isso aconteça, é necessário agir em duas frentes: (1) eliminar barreiras como esforço mental físico, falta de conhecimento e falta de tempo e (2) criar gatilhos para que as pessoas se lembrem de fazer a coisa certa na hora certa.

Uma ferramenta importante nesse sentido é gestão visual, que ajuda as pessoas a encontrar de forma fácil e intuitiva – sem precisar “guardar tudo na cabeça” – as informações que precisam para realizar uma atividade. Para isso, é importante informar de modo que qualquer um consiga entender: o que fazer, quando, como, quais insumos usar e onde.

 Vale lembrar que a gestão visual também auxilia a identificar problemas nos processos.  Isso pode ser feito utilizando padrões de cores, cartazes, sinais e o que a criatividade permitir – esses mecanismos servem tanto para diminuir as barreiras quanto para criar gatilhos. Veja a seguir alguns exemplos:

a) Alimentação das vacas:

Para alimentar as vacas, o responsável pelo trato precisa de informações tais como:


1. Qual dieta vai para cada lote;
2. Onde fica cada lote e quais animais estão naquele lote;
3. Qual o horário do trato;
4. Quais são os ingredientes da dieta.

Como fazer com que essas informações sejam visuais? Imagine que cada dieta pode ter uma cor e a formulação fica exposta em uma placa, da cor da dieta, na parede do barracão. As mesmas cores estão em placas na frente do cocho de cada lote, com o horário que cada dieta deve ser distribuída. Mais fácil, não?

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b) Tratamento de mastite 

Outro exemplo prático é o que está sendo testado na Fazenda Melkstad, em Castro (PR). Quando uma vaca é identificada com mastite, ela é marcada no úbere com uma cruz e o teto infectado é anotado fazendo uma “bolinha” no quadrante da cruz que representa aquele teto.  A cor da marcação representa o grau da mastite (vermelho para severa, amarelo para moderada e azul para branda).

A cada aplicação do medicamento é feita uma marca na perna da vaca com a mesma cor. Uma vez que todas as aplicações do protocolo foram realizadas, o ordenhador passa a marcar, em cima dos riscos na perna da vaca, com um marcador verde. Isso mostra que a vaca está no período de carência. Uma vez que todos os riscos foram cobertos com o verde, a vaca está liberada e então seu úbere é todo pintado de verde. 

Isso faz com que qualquer ordenhador, sem nenhum tipo de lista, saiba identificar as vacas em tratamento e todas as informações sobre ele: teto, grau, número de dias de tratamento ou carência. 

Para simplificar ainda mais, foram padronizados os protocolos para cada grau. Os medicamentos de cada protocolo ficam em caixas da mesma cor do grau.  Assim o ordenhador não precisa lembrar do nome dos medicamento –  apenas da cor. 

Agora imagine fazer isso com todas as informações que os empregados usam na fazenda! Comece a se questionar: o que essa pessoa usa para fazer esse trabalho? Como essa informação pode ser mais visual? E não duvide do poder da simplificação. Coisas muito simples podem, de fato, evitar defeitos importantes. Pense nisso e mãos à obra!

*Henrique é Gestor de Formação da Clínica do Leite, instrutor do Sistema MDA

Henrique Marques