Enxergando a fazenda do alto

“Algo foi colocado na frente de um grupo de homens com os olhos vendados para que eles descobrissem, apenas pelo tato, do que se tratava. Para o primeiro homem, aquilo, com certeza, era uma cobra. Para o segundo, um leque de abano. Em seguida, o terceiro riu e disse: ‘Claro que isso é um tronco de árvore.’ O quarto proferiu: ‘Que absurdo! É uma lança!’ Então, o quinto homem, irritado, se exaltou – ‘Vocês estão loucos! É uma simples corda!’ Logo depois foi solicitado que tirassem a venda e para surpresa de todos, se tratava de um grande elefante. Assim, os homens perceberam que estavam certos na descrição do ponto de vista restrito ao toque, mas totalmente errados ao generalizarem suas constatações parciais.”

          A parábola acima exemplifica bem a realidade de muitas fazendas, nas quais as pessoas têm um olhar restrito para o seu setor ou trabalho, mas não possuem a visão sistêmica e mais importante para o negócio: o fluxo que cria valor para o cliente. Desse problema resultam grandes fontes de desperdícios que precisam ser eliminados.

          Um dos exemplos de desperdício gerado por essa disfunção está na área de compras, que para atingir sua meta de redução de custo de insumos negocia contratos com maior volume e menores preços. Em consequência, a empresa passa a ter grandes quantidades de estoques (dinheiro parado), perdas de produtos estragados e vencidos, além de produtos que muitas vezes não são os mais eficientes. Outra situação é quando a oficina foca em consertar 100% das solicitações de quebra, mas não atua em conjunto com as demais áreas na manutenção preventiva ou na simplificação das estruturas para otimizar o fluxo. Há também casos em que o setor responsável pela reprodução, para aumentar seus índices, concentra um grande número de vacas prenhes em determinado período, sem se importar com a capacidade de instalação e de produção das etapas seguintes de criação de bezerras, recria de novilhas e vacas em lactação.

          Portanto, ao se trabalhar de forma isolada, muitas atividades ficam desalinhadas com o que gera valor para o cliente. Nesse caso, o gestor precisa capacitar as pessoas para adquirir uma visão sistêmica do negócio, ou seja, cada pessoa deve entender o seu papel no fluxo de valor e como o resultado do seu trabalho impacta nos clientes internos e no cliente final. Em resumo, é importante que todos entendam que o resultado final – leite no tanque, por exemplo – depende da somatória do trabalho de cada um.

          Para que isso aconteça e esse entendimento se internalize na equipe, é necessário que exista o gerente do fluxo de valor. Esse gestor deve ser uma pessoa que enxergue o fluxo completo e que tenha responsabilidade no seu desempenho, além de autoridade sobre os seus meios.

          Dentro desse contexto, podemos dizer que o gerente do fluxo de valor precisa se comportar como um mergulhador. Ele precisa pegar folego ao respirar no nível mais alto, entender o que é valor para o cliente e mergulhar nos processos e tarefas junto com a equipe para solucionar os problemas. Essa é a grande oportunidade que ele tem para capacitar cada pessoa a entender o que é valor para o negócio. Contudo, lembre-se que ele não pode permanecer apenas no nível operacional, pois faltará oxigênio, tampouco só na superfície, sem saber o que se passa na operação.

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Felipe Zumkeller Garcia